Registros de balões em rota de avião cresce e caminha para novo recorde

Radares não são capazes de identificar os balões

Radares não são capazes de identificar os balões
Dario Oliveira/Código19/Estadão Conteúdo – 26.12.2015

Balões de dezenas de quilos, com fogo e botijões de gás, passam diariamente a poucos metros de aviões nos aeroportos mais movimentados do Brasil.

Esse tipo de ameaça, uma exclusividade brasileira, espalha-se e preocupa cada vez mais pilotos, controladores de voo e autoridades. 

Os números justificam a preocupação de quem trabalha na aviação e até mesmo de passageiros.

Entre janeiro e agosto, já são 498 registros de balões em rotas de aeronaves em todo o País, ou duas notificações por dia. Em relação ao mesmo período de 2016, a alta é de 31% (veja evolução no quadro abaixo).

É o maior número de registros para o período janeiro-agosto desde que o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) começou a contabilizar esses episódios, em 2012.

Ao final de agosto, o número de reportes de balões próximos a aeroportos já se aproximava do total em todo o ano passado, que foi de 511.

O coronel-aviador Antônio Heleno da Silva Filho, especialista em risco baloeiro no Cenipa, afirma que as campanhas desenvolvidas pelo órgão e pela SAC (Secretaria Nacional de Aviação Civil) fizeram com que aumentassem as notificações.

— É possível que os números até estejam estáveis e as visualizações estão sendo mais reportadas em função desse esforço para que a gente tenha estatísticas melhores para poder atuar onde seja necessário. É um problema muito antigo, de quase 20 anos.

Já o piloto comercial e diretor de segurança de voo do SNA (Sindicato Nacional dos Aeronautas) Mateus Ghisleni diz que o número de notificações é “infinitamente menor” à quantidade de balões nos ares.

— Às vezes, [o piloto] relata via rádio ao controlador, mas quando pousa não faz o relatório oficial à companhia aérea ou ao Cenipa. Então, a subnotificação ainda é muito grande.

O coronel do Cenipa e o piloto concordam ao dizer que o Brasil é o único país onde a aviação tem esse componente de risco. Na Ásia, existe uma tradição de lamparinas, mas que é controlada para não expor perigo às aeronaves.

O aeroporto mais movimentado do País, Guarulhos, é também onde os pilotos mais enfrentam esse tipo de problema.

Neste ano, os casos já somam 98. Dois em cada dez balões notificados em 2017 estavam próximos ao aeroporto de Guarulhos.

No último sábado (26), um balão caiu no pátio onde as aeronaves estavam estacionadas no aeroporto (veja abaixo)

No começo do ano, um controlador de voo de Guarulhos expõs a situação ao Cenipa: “A partir de um dado momento, verificamos que as aeronaves não tinham condições de serem vetoradas. Quando o controle solicitava algum vetor ou descida, as mesmas informavam não terem condições de fazê-lo, pois a quantidade de balões era enorme”.

Em 23 de agosto, um Airbus A380, maior avião de passageiros do mundo, chegava de Dubai e estava em aproximação final para pouso em Guarulhos quando o piloto reportou um balão a apenas 150 m abaixo da aeronave.

“Impacto pode ser catastrófico”

O coronel-aviador do Cenipa alerta para o risco que os balões oferecem.

— A gente tem registros de balões de 40 m, 50 m, que carregam centenas de quilos de fogos. O impacto de uma coisa dessas contra um avião pode ser catastrófico. Existe essa possibilidade concreta de uma tragédia de grandes proporções, com perdas de muitas vidas. Uma massa de 15 kg, por exemplo, colidindo com um avião a 300 km/h gera um impacto de 3,5 toneladas.

Ghisleni, do SNA, explica que não há ferramentas para identificar a localização dos balões.

— Na aeronave, nós não temos nenhum sistema que possa detectá-los que não seja a visão do piloto. Os radares de tráfego aéreo também não captam. Não existe hoje um mecanismo eficaz de saber onde os balões estejam senão a visão. […] No dia a dia, quando você avista o balão, tem vezes que está tão perto que não dá tempo de desviar. Só não colide por sorte. Eu diria que é uma questão de sorte e de tempo para acontecer outra colisão.

Entre 2012 e 2015, foram seis registros de colisões de aeronaves e balões. Desde então, nenhum novo episódio ocorreu.

Grandes altitudes

O perigo vai além das proximidades de aeroportos. Há relatos de balões em grandes altitudes, por volta de 11.000 m, como o feito por um piloto da Latam de um voo de São Paulo para Porto Seguro (BA), no fim de julho.

“Sugiro mais cobranças e sanções a essas pessoas que nesses passos estarão causando um grande acidente em breve”, escreveu.

O comandante Marcelo Diulgheroglo, gerente-sênior de Segurança Operacional da Latam Brasil, explica os transtornos que balões em aeroportos movimentados podem ocasionar.

— A presença de balões em áreas próximas a aeroportos pode provocar fechamento de pista, cancelamento, necessidade de interrupção de decolagens, além de atrasos de voos, fatos que atrapalham o dia a dia de muitos passageiros.

Em São Paulo, Estado que responde por mais da metade das ocorrências, a Polícia Militar informou que realiza operações constantes nos eixos dos aeroportos de Campinas, Guarulhos e Congonhas.

De acordo com a Secretaria de Estado da Segurança Pública, entre janeiro e o dia 15 de agosto, 78 pessoas foram presas em flagrante e 157 balões foram apreendidos. As multas aplicadas aos baloeiros somam R$ 1,3 milhão.

Fabricar, vender, transportar ou soltar balões prevê pena de detenção de um a três anos ou multa, de acordo com a lei 9.605/98.

 

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